sábado, 25 de junho de 2016

Homem Comum

- A vida não deveria ser mais fácil?

Perguntou ao atendente do bar, o homem de impecável aparência, de resposta recebeu um sorriso de canto de rosto e mais uma dose no seu copo. Estava ali, como em qualquer sexta-feira normal, tomando seu Whisky Royal 21 anos. Não que ele acreditasse que a bebida fosse resolver os seus problemas, mas se ao menos pudesse esquece-los por algumas horas, já seria o suficiente. Era contraditório e até um pouco cômico ver naquele bar a figura de um homem engravatado, cabelo á escovinha, óculos sem armação e sem ao menos 1 milímetro de barba no rosto. Poderíamos imagina-lo bebendo em um congresso para advogados, em uma reunião com prefeitos e governadores, em um encontro de empreendedores de alta classe, mas não ali, naquele bar pútrido do subúrbio, que fedia a urina e vômito.

Terminou o que havia em seu copo deixando uma enorme gorjeta para o garçom e em seguida caminhou lentamente para a vitrola antiga cheia de teias de aranha que estava mofando ao lado do banheiro. Colocou a moeda e ligou-a com um toque sutil, quase imperceptível aos que passassem por ali, escolheu uma musica lenta e encostou-se na parede enferrujada.

Ouvir blues sempre o acalmava, fazia-o lembrar de um tempo que nunca chegou e que tinha ficado apenas nos seus sonhos de adolescente, agora com 35 anos, não poderia mais viver aquilo tudo, não poderia mais sentir aquilo tudo, ou se poderia, não almejava fazer, pois cometer tal loucura a essa idade seria enganar a si mesmo, seria não ter vivido nada até aqui e ter parado no tempo.

Ao chegar no ápice do solo da guitarra, ele sentiu seu celular vibrar, era a realidade que o chamava de volta, não que fosse bom voltar a realidade, mas era necessário, ele sabia. O sistema o obrigava, e ele mesmo se obrigava, pois estava tão imerso no seu próprio orgulho que nem ao menos cogitava uma mudança. O homem de boa aparência saiu daquele bar prometendo nunca mais voltar e nunca mais lembrar desses pensamentos que o desvencilhavam de tudo. Seria melhor assim, seria mais fácil assim.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Salvo pra quê?

Meus olhos estavam pesados, sim, muito pesados, foi essa a primeira sensação quando acordei. Fiz um pouco de força até que consegui abri-los lentamente, poderia ser somente mais um dia que acordei atrasado para o trabalho, mas não era, era muito pior do que isso. Eu estava em um lugar distante, completamente solitário e com fome, diante de mim havia um mar imenso que se não fosse por aquela situação que eu me encontrava teria uma beleza infinda, em toda a minha volta havia areia e muita vegetação, típica de um lugar muito pouco explorado.

Por um momento me senti leve, longe de todo aquele asfalto e toda aquela massa cinza que envolvia minha vida, consegui imaginar-me sem toda aquela pressa e loucura da metrópole em que eu viva, como se eu estivesse novamente nas minhas compactas férias de todo ano para o litoral, porém uma coisa me fez despertar dessa sensação de bem estar e me trouxe para a realidade, foi o som do helicóptero de resgate que estava pousando por ali, e não, eu não fiquei feliz por ele chegar para me salvar. 

domingo, 12 de janeiro de 2014

Festa


Será que ela vai estar lá? E se estiver, o que devo dizer? Será que peço uma dança? Ou então ofereço uma bebida?

Enquanto todas essas perguntas passavam pela minha cabeça ouvi meu irmão bater na porta, eu já estava á vinte minutos no banheiro e ainda não tinha terminado meu banho, mais uma vez irei ouvir reclamações de meus pais por demorar no banho, mas hoje será uma noite especial então permito me questionar por mais alguns minutos enquanto sinto a água escorrer por meus cabelos.
  
Enfim, tive coragem e desliguei o chuveiro, me olho no espelho e foco em meus olhos, tentando aumentar minha autoestima de alguma forma, meu rosto cheio de espinhas não ajuda muito, pego uma navalha e tiro os pelos que estão começando a crescer em cima dos meus lábios. Ao tomar essa atitude, me surpreendo ao lembrar como o tempo passou rápido, parecia que era ontem que eu saia para brincar com meus amigos, e agora estou aqui, fazendo a barba para ir á minha primeira festa, é fato que esses quinze anos passaram depressa demais.

Após ouvir milhões de conselhos de minha mãe, consigo sair de casa. Enfim aqui estou, em minha primeira festa, na casa do cara mais popular da escola, ás vezes não acredito que ele tenha mesmo me convidado, mas acho que eu mereci após ter feito aquele trabalho de matemática para ele. Não tenho muitos amigos nessa nova escola, para ser sincero, após meus pais terem se mudado não fiz nenhuma amizade, todos parecem completamente diferentes de mim, exceto por ela, a garota responsável por eu estar aqui.
 
Em um momento de descuido, me pego olhando para um grupo de pessoas e é então que a vejo, conversando com sua amiga, ela estava linda, não cabe a mim descrevê-la nessas linhas, pois talvez o leitor não acredite nos exageros de um jovem de quinze anos, mas o que guardo em memória é a imagem de um anjo, uma beleza que em tamanho, não se possa comparar nem mesmo com os céus.

Pego mais uma bebida, minha cabeça dói, e é então que por um ímpeto de coragem resolvo ir falar com ela, mas o que dizer? Como dizer? E se ela me ignorar? Quando dei por mim estava caminhando, o tempo parou nesse instante, cada passo que eu dava para chegar até ela era como um passo para chegar á lua. Ao chegar próximo dela, percebi que estava olhando em minha direção e sorrindo, neste momento senti meu coração batendo próximo ao meu pescoço, minhas pernas tremendo, minhas mãos congeladas. A única coisa que me lembro em seguida é de ter acordado, de um sono profundo, nesse hospital frio e solitário.



domingo, 5 de janeiro de 2014

Cemitério

Era apenas o fim de mais um dia de trabalho comum. Desligou seu notebook e olhou pela janela, o sol brilhava lá fora, apesar de já serem seis horas da tarde. Esse maldito horário de verão apenas servia para fazer seu cérebro queimar na volta para casa, foi então que ele decidiu mudar de trajeto, o caminho pelo cemitério era mais longo, porém mais fresco, as árvores em volta do cemitério traziam um pouco de vida para aquela cidade, morta e cinza como sempre. 

Ao passar pela pequena estradinha de asfalto por entre os túmulos, começou a olhar os mesmos, um por um, procurando entre as fotos nas lápides se via algum rosto conhecido, era provável que não, mas se achasse algum rosto familiar ao menos poderia recordar sobre este no caminho de volta. Viu soldados, camponeses, pais de famílias, viúvas que morreram solitárias, até mesmo crianças que nem tiveram a chance de aproveitar os prazeres da vida. 

Eis que ao passar por um túmulo um feixe de luz reflete em seus óculos, ele coloca a mão em frente ao rosto e ao mudar de direção percebe uma lápide com um rosto um tanto quanto familiar, era incrível a semelhança, era como se estivesse olhando ao espelho, aquele homem, tinha exatamente a sua fisionomia, todos os traços. Ao ler a lápide é que teve um susto maior ainda, nela dizia apenas: “Pobre patife, viveu tanto para o dinheiro que esqueceu de viver para si”. 

Que tipo de homem teria em seu epitáfio uma descrição tão cruel, nenhuma descrição de afeto, era horrível pensar em um enterro dessa forma, provavelmente teria morrido rico, mas sem família, sem amigos, era triste. Mas agora, por um instante, pensou na sua vida, pensou em como estava vivendo-a, e sentiu-se culpado, culpado por estar cometendo o mesmo erro, por estar pensando mais no dinheiro do que em si e também, por não estar dando o devido valor para as pessoas que realmente importam em sua vida.

Saiu do cemitério, continuou caminhando até que avistou sua casa, no jardim da frente lá estava seu filho, brincando com o cachorro, tinha quase oito anos já e ele nunca tinha dito o quanto o amava, sentiu um momento de remorso, mas correu, correu em direção ao seu filho e lhe disse tudo o que sentia e como era feliz por o ter em sua vida. Após se abraçarem eles entraram na casa, o sol que queimava em sua cabeça não estava mais ali, provavelmente porque este sol já havia cumprido sua missão por hoje.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Insônia

Burro.

Burro mesmo. Era somente esse o adjetivo que passava em sua mente ao olhar-se ao espelho. Passavam das quatro da manhã e ele ainda não tinha conseguido dormir, um copo de leite quase fervendo, algumas bolachas, e mesmo assim o maldito sono estava longe de aparecer.

Lembrou-se que já era segunda e que teria um dia importante no trabalho, foi então que ele resolveu enfrentar seus pensamentos, lembrou-se do que havia acontecido naquela noite e de como tinha sido cruel com ela, de como agiu precipitadamente e principalmente de como queria voltar ao passado e fazer tudo de novo.

Ela estava linda com aquele vestido. Era vermelho, a mesma cor do batom que brilhava em seus lábios. E como esquecer dos cabelos, cacheados, tão castanhos quanto seus olhos. E os olhos, á os malditos olhos, foram estes os responsáveis pela sua forma de agir, forem estes os responsáveis por fazer-se viva toda a ira que ele tinha guardado em seu peito, não por serem frios, mas por serem quentes demais, por serem ligeiros demais, ambiciosos.

Ao lembrar-se dos olhos, lembrou também das palavras e começou a ouvi-las em sua mente, da mesma maneira que em sua ultima noite. Estas não eram quentes, mas sim frias, não acompanhavam o belo sorriso que ela tinha e isso o fez temer, temer o que viria a diante. O sono estava a se aproximar agora, era uma pena, pois em seu relógio já eram quase sete e meia.